sábado, 31 de março de 2012


No centro da pequena sala está um homem sentado, a abraçar as pernas contra a sua face e a olhar para uma chama que se eleva de um pequeno buraco no centro do chão de granito negro.
A chama contorce-se e diminui, devolvendo à pequena sala um pouco do abraço do vazio. O homem aperta-se mais contra si próprio, retraindo-se do frio que se apodera do espaço; pergunta-se quando irá por fim desaparecer aquela desculpa patética de fogo. Há tão pouco era inferno de labaredas na iminência de tudo consumir! Fervia o sangue em deslumbramento e libertava fumos que cegavam os olhos e toldavam a mente. Agora, somente pequena chama de vela, é incapaz sequer de aquecer o frio cortante que regressa. E porém ameaça queimar quando o desespero por calor levar à aproximação excessiva de um toque. 
Ouve-se um murmúrio do homem “Desaparece. Não me tentes mais. Deixa-me voltar ao meu mundo de torpor e negrume. Serei novamente estátua de gelo.” E a prece termina num tremor, não de frio, mas de medo que o desejo seja atendido.
O homem adormece. A chama morre.
Se haverão lágrimas silenciosas quando o homem acordar ou até mesmo se acordará antes de voltar a ser glaciar humano, não o saberei. Está demasiado escuro para que o consiga ver.