segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Olhei-te, e ali estava ele. Era límpido, quase transparente, mas a luz que te vertia do sorriso e o banhava reflectia-se em cor que pintava o mundo. Era tão frágil e tu segurava-lo à vista de todos. Então tive medo. Tive medo que o riscassem, que o lascassem, que o quebrassem. Quis gritar "Louco! Corre e esconde-o ou o mundo irá partir-to!" Mas logo sofreei as rédeas ao impulso. E se me escutasses? Não, eu não podia perder a cor que projectavas na minha brancura.
Jurei-me então protegê-lo. Envernizei-me de grandeza e valentia e coloquei-me de sentinela à espreita de demónios destruidores. Esqueci-me, porém, embriagado no êxtase do arco-íris que derramavas sobre mim, que a luz caminha a par da sombra; e havia noite cerrada em mim que a tua cor não iluminava. Ah, esqueci-me do demónio que eu também era! As penas brancas que cresci, porque queria pegar-lhe sem que o riscasse, tornaram-se garras e presas. Estas asas pervertidas investiram e...dor! O que julguei cristal era afinal diamante; a fragilidade que tanto quis proteger nunca existira e foram os meus estilhaços a cobrir o chão quando ruí em loucura.
Vou-me colando nas sombras do meu mundo de neve e, tal como choro sobre as rachas que me vão cobrindo, sorrio pelo coração que não consegui destruir. 

4 comentários:

  1. Como podes ter inveja? Do pouco que li, adorei. De qualquer forma, é óbvio que te fico muito grata :)
    Não tenho tido muito tempo, mas um dia destes passo na biblioteca e procuro o livro. E está descansado, ficas isento de culpa se eu não gostar, eu assumo a responsabilidade :)

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    1. Fico contente por teres gostado :D Mas sei que tenho um longo caminho a percorrer na terra das palavras e ainda estou bem longe da tua paragem :)

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  2. Vim ter aqui através do Didascália e só queria dizer que gosto muito dos textos. É pena ainda serem poucos :) Fico à espera de mais!

    Sónia

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    1. Obrigado pelo comentário, Sónia. E pela decisão em seguires este meu espacinho :) Escrevo e escreverei sempre que consiga arranjar o tempo e as palavras, que por vezes são caprichosas e fogem de mim :p

      André

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